"As vezes ouço passar o vento, e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”
(Fernando Pessoa)

3 de maio de 2011

Juquinha da Serra x Zé Guedes: o embate que por pouco não aconteceu



Autor: Dirceu Thomaz Rabelo


O trem ia feder a chifre queimado se tivesse acontecido. Imagine só! Juquinha da Serra e Zé Guedes se pegando a unha aqui em Dom Joaquim? Mas já vou logo adiantando; não aconteceu por um milagre da cachaça “Mata Saudade”, que costurava muitas paradas mal resolvidas.
Seu Júlio, motorista do ônibus da Viação Santana que fazia a linha Dom Joaquim/BH naquela época, estava passando pela Serra do Cipó com a neblina baixa, frio de doer, indo para a capital mineira e vendo o Juquinha na beira da estrada parou e perguntou pra ele:
- Ô veio! Quer passear em Dom Joaquim amanhã e sair dessa neblina baixa.
- Lá tem pinga da boa? Perguntou Juquinha, sorridente, mostrando sua boca murcha sem um dente sequer.
Seu Júlio respondeu pra ele que, o que não faltava em Dom Joaquim era pinga boa e mulher bonita. Juquinha deu até bicota.
Ficou combinado que Juquinha iria fazer um “tour” em Dom Joaquim no dia seguinte.
Antes de acelerar o velho ônibus, “seu” Júlio ainda recomendou ao Juquinha:
- Não deixa de tomar um banho não! E lava bem essa rola veia!
Juquinha caiu na risada e emendou:
- Cuá! Ta frio dimais da conta!
No dia seguinte, na hora marcada, lá estava Juquinha com sua trouxa de roupas e seu chapeuzinho de palha, igualzinho está lá na estátua dele.
Foi só chegar a Dom Joaquim e “seu” Júlio arrumou um jeito de dar um banho no Juquinha na casa de tio Bentinho Costa, onde ele se hospedava. A inhaca do veio Juquinha empestiou o ônibus.
Banho tomado, almoço na pança, hora de conhecer Dom Joaquim e sua tribo. Primeira parada: venda de Tio Bentinho. Mau lugar para se conhecer, quando o dono era Bentinho Costa.
Papo vai papo vem, chega Zé Guedes fazendo entrega de algumas vassouras de taquaruçu ali na venda. Cumprimenta a todos educadamente como de costume, encosta-se no balcão,
recebe de Tio Bentinho o dinheiro relativo à venda das vassouras e uma boa dose da boa pinga de Nico Mucinha.
Nisso, “seu” Júlio já soprou para o Juquinha que “aquele baixinho da perna mais curta que a outra” que acabara de chegar era um dos homens mais bravos de Dom Joaquim. Ele se referia ao pobre do José Guedes.
Tio Bentinho, pegando a deixa, dedou pra Zé Guedes que aquele forasteiro da boca murcha era o cão da Serra do Cipó. Comia lagartixa como tira gosto de pinga.
O clima já estava armado. Zé Guedes que já tinha tomado uma lá mesmo no Cruzeiro, já arriscou uma fuzilada de olho no tal machão da Serra.
Como o Juquinha estava meio frio pra encarar o terror de Dom Joaquim, “seu” Júlio mandou servir uma “Mata Saudade” para ele, que encheu a bochecha e engoliu de uma só vez, quase um quarto da boa. Aí Tio Bentinho se aproximou e atiçou a fornalha:
- Ô Juquinha! O perigoso lá tá falando que na Serra do Cipó só dá florzinha e veado gaieiro.
Aí o Juquinha se queimou de vez e retrucou alto:
- Viado gaiêro, só se for o butão dele!
Tio Bentinho, “seu” Júlio, Tio Joaquim Violeta, Tio Dedá e todos que presenciaram o “quase embate”, quase que rolaram de tanto rir.
Zé Guedes já sapecado tomou as dores pra ele e riscou o cabo de vassoura no chão e falou
desafiador:
- Aqui em Dom Joaquim, galo de fora não arrasta espora!

E pinga pra lá, pinga pra cá; pequenas ofensas pra lá, pequenas ofensas pra cá... No final, não rolou nada de briga e nem rolaria, porque os atiçadores só queriam ver mesmo um bate boca que afinal aconteceu. Eles se divertiram muito com os dois bêbados, famosos depois de mortos. Um é estátua muito visitada na Serra do Cipó; virou famosa atração turística. Outro dá nome a uma rua importante de Dom Joaquim. Quem diria!

Fonte: Rede Mineira de Cultura

Postado por Dirceu Thomaz Rabelo em 17 janeiro 2011 às 14:30

Disponível em: www.redemineiradecultura.ning.com/profiles/blogs/juquinha-da-serra-x-ze-guedes

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