"As vezes ouço passar o vento, e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”
(Fernando Pessoa)

7 de novembro de 2010

O HOMEM QUE CULTIVAVA ÁGUA


     Brad Lancaster, viajando pelo sul da África no verão de 1995, ouviu falar de um homem que cultivava a Água. No lugarejo de Zvishavane, no Sul do Zimbabwe, após uma longa e lenta viagem de ônibus, ela encontrou Sr. Zephania Phiri Maseko, o cultivador de água.
     Um homem simples, alegre, que contou-lhe a sua história: por se opor ao governo branco em 1964, Sr. Phiri - como ficou conhecido - foi demitido e ameaçado: "Jamais terás emprego algum novamente". Ele, com uma família de 8 para sustentar, voltou-se então para sua propriedade de 3 hectares. Ali, contudo, não dispunha de água. Observando com atenção a Natureza ao seu redor e o ciclo das águas, ao longo de 30 anos Phiri criou um sistema sustentável que preenche todas as suas necessidades em água, só com a chuva.
     “Tem que começar a captação no alto, e sarar as voçorocas jovens antes das velhas e profundas rio abaixo,” diz. Com um engenhoso conjunto de muros de pedra, ele consegue 'amansar' o ritmo das águas das chuvas, colina abaixo, criando espaços de contenção, por onde elas fluem lentamente.
     Desta forma, a água chega em reservatórios permeáveis, construídos à mão por Phiri e suas duas esposas. “O solo,” explica, “é como uma lata. A lata precisa segurar toda a água. Vossorocas e erosão são como buracos na lata que permitem que a água e a matéria orgânica escapem. Estes precisam ser tapados.”
Brad esclarece que o governo colocou valas de escoamento na região toda muitos anos atrás, mas feitas fora das linhas de contorno. Suas lâminas visavam acabar com a erosão, levando a água das tempestades para um dreno central. O problema de erosão resolveu-se, mas as terras acabaram sendo roubadas da sua água.
     Ao contrário, Sr. Phiri cavou grandes “covas de fruição” de 10x6x4 pés no fundo de todas as suas valas. Quando chove, a água enche a primeira cova e o excedente enche o seguinte, continuando assim até os limites da propriedade. Muito depois do fim da chuva, a água continua nas covas, infiltrando no solo.
     Em volta das covas capins grosseiros são cultivados para controle de erosão, para cobertura das casas, e venda. Muitas árvores frutíferas vigorosas foram plantadas por Sr. Phiri ao longo dessas valas para fornecer alimentos, sombra, e quebra-ventos. São alimentadas estritamente pelas chuvas e o lençol freático, que vai se aproximando da superfície.
     Como, Phiri explica: “Cavo valas e covas de fruição para 'plantar' a água para que possa germinar em outro lugar. Ensinei o meu sistema às árvores”. Continua: “Elas o entendem e à minha linguagem. Coloco-as aqui e digo ‘Olha, a água está aqui. Vão à procura.” Nenhuma bacia nem divisória para segurar ou negar a água é colocada em volta delas; as raízes são encorajadas a se esticar e encontrar a água.
     Uma mistura diversa de culturas não híbridas como abóbora, milho, pimenta, beringela, taboa para cestas, tomate, alface, espinafre, ervilha, alho, feijão, maracujá, manga, goiaba, e mamão, juntamente com árvores nativas como matobve, muchakata, munyii, e mutamba são plantadas entre as valas.
     Esta diversidade garante a saúde de todo o ambiente e traz segurança para a família, que se sente cuidando de seu próprio Jardim do Éden, como descreve a Bíblia no texto que inspirou toda a ação de Phiri.
     Mais um exemplo de que com atenção e observação é possível entrar em harmonia com a Natureza e ter uma boa vida que 'lutar contra ela' não garante.

Quem quiser pode ler a íntegra do relato aqui


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