"As vezes ouço passar o vento, e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”
(Fernando Pessoa)

25 de setembro de 2010

O CASO DO TOSTÃO DE CHUVA

Texto de: Leopoldo Costa *


 
Lá para os lados do Tombadouro, povoado na divisa de Passa Tempo com Morro do Ferro, a seca daquele ano estava insuportável. O gado já estava morrendo de sede e por falta de comida, pois o que restava nos pastos, era apenas a maçaroca de capim gordura ressecado, que machucava a boca dos animais. A maioria destes animais tão resistentes estava que só pele e osso. Muitos bezerros e vacas mojando, tinham morrido, e apodreciam nos pastos, chamando a atenção dos urubus que voavam em bando até localizarem as carcaças, que eram por eles disputadas com os famintos cachorros da redondeza.
 
Se morresse uma vaca mais gorda, perto do curral da fazenda, as mulheres se davam ao trabalho de descarnar a carcaça e o sebo era usado para fazer o sabão preto. O resto era abandonado.

Promessas e penitências eram feitas, com as mulheres, as crianças e alguns homens, carregando velas acesas em longas procissões e levando água benta para regar o pé do cruzeiro, pedindo a Deus para que mandasse a chuva tão necessária. Os córregos estavam ficando sem água e era difícil achar algum moinho de pedra funcionando para moer fubá ou descascar arroz.
 
Desde fevereiro que não caia um pingo d'água. Chegou setembro e nada da chuva aparecer.
 
Nas redondezas, morava também um rico fazendeiro ranzinza, que não freqüentava a capela e nem acreditava em Deus. No início, ficava zombando das ladainhas e das procissões, que passavam na estrada poeirenta perto do seu curral, rumo ao cruzeiro. Possuía muitas cabeças de gado e com aquela seca, cada dia morria meia dúzia delas. Sentia na algibeira o efeito da agrura da natureza, dizimando parte da sua riqueza.

Na mesma época, morreu um pequeno proprietário, que era seu compadre, vizinho da sua fazenda. Era uma pessoa religiosa que ajudava a puxar as ladainhas nos dias de novena. No velório todos os habitantes do povoado compareceram, lamentando o acontecimento.

Os homens ficavam na varanda perto da sala onde estava o defunto. O caixão ficava aberto e coberto com um véu branco, apoiado em dois cavaletes. Era todo roxo emoldurado com grossas fitas douradas. De cada lado podia ser observado duas jarras com meia dúzia de lírios brancos e uma grande vela de cera, acomodadas num bonito castiçal. Os homens bebiam café com biscoito, pitavam os seus cigarrinhos de palha, e contavam seus casos. De vez em quando, na sala, uma comadre puxava um terço e chamava todos para acompanharem. A seca era o assunto que mais se falava, os mais velhos diziam que nunca tinham visto alguma daquele jeito.
 
O rico fazendeiro, também estava lá e apesar de estar tendo muito prejuízo, ainda continuava a zombar dos outros, que achavam que Deus poderia dar um jeito. Na hora do terço só ficava espiando.

Chegou a hora do enterro. Quando iam fechar o caixão, em tom de deboche, o rico fazendeiro tirou da sua algibeira uma moeda novinha de um tostão, colocou debaixo das mãos frias do morto que estavam entrelaçadas no peito e disse com a voz bem alta para que todos ouvissem: "Chegando lá no Céu compadre, peça ao seu São Pedro para mandar p´ra mim um tostão de chuva".

Fecharam o caixão, a viúva e as filhas choraram mais ainda. O caixão foi cuidadosamente colocado num carro de boi que já esperava na porta, forrado com um tapete. O enterro saiu devagar, sendo acompanhado por todos, uns a cavalo e outros a pé, até o arraial de Passa Tempo. O tropel dos cavalos levantava muita poeira na estrada.
 
Antes de chegar no arraial, perto do córrego, o caixão foi retirado do carro de boi e carregado por quatro amigos do falecido. O cortejo subiu pela rua íngreme, e era observado por curiosos, que colocavam as caras nas janelas e faziam o sinal da cruz. Os homens na rua tiravam os chapéus quando o féretro passava por eles. Subiu por uma esquina e passou defronte ao armazém que imediatamente abaixou as suas portas, em sinal de respeito.

Finalmente chegou na igreja de Nossa Senhora da Glória, que já badalava o seu sino no toque apropriado para anunciar enterros. Foi recomendado pelo padre, que aspergiu água benta na face pálida do defunto, incensou-o, rezou o Requiescat in Pacem e o caixão seguiu para o cemitério para ser sepultado. Durante o sepultamento, alguns jogaram punhados de terra na cova, as mulheres arremessaram os lírios brancos que trouxeram da sala do velório. Cientes de terem cumprido o seu dever, voltaram para o povoado, todos em comitiva.
 
Mais tarde, quase ao cair da noite, o tempo começou a mudar bruscamente. Escureceu de uma hora para outra e parecia que as nuvens pretas encostavam-se ao cume dos morros. Era trovão e raio para todo lado. As montanhas faziam com que os trovões ecoassem várias vezes e ficassem mais sinistros. As mulheres mais piedosas começaram a queimar as folhas bentas e secas das palmas que tinham guardado da procissão do Domingo de Ramos, ajoelhadas defronte ao oratório de Santa Bárbara e São Jerônimo, rogando por proteção. Todos sentiam frágeis com aquela situação.
 
Veio aquela chuvarada que fez transbordar imediatamente os córregos e alagou vários currais. Arvores foram arrancadas pela força do vento que uivava feito uma onça no cio. Até o barracão do curral do rico fazendeiro foi destelhado e também uma parede, que era de adobe, foi arrebentada. Gravetos, muitas folhas secas e tocos de arvores eram levados pela enxurrada que descia das ladeiras.
 
Veio claramente na lembrança de todos o que o rico fazendeiro tinha falado na saída do enterro do seu vizinho e ficaram muito assustados, temerosos que a ira divina caísse sobre eles. Um pouco mais tarde o temporal foi diminuindo, a ventania parou e ficou apenas a chuva forte e persistente, fazendo barulho nas telhas. O brejo na beira do córrego, onde sempre plantavam arroz, começou a ficar cheio de água, pois a correnteza trazia muitos gravetos e tocos de arvores, entupindo o córrego e dificultando o escoamento de tanta água.

O fazendeiro que tinha encomendado o tostão de chuva ficou também impressionado, mas não dava o braço a torcer. Sentado na cadeira de palhinha da sua sala, balançava o corpo num ritmo gostoso, enquanto meditava e tirava baforadas longas do seu cachimbo. A cada vai-e-vem da cadeira, ouvia-se um pequeno rangido das tábuas largas de cedro do assoalho da grande sala. Certa hora chegou a ouvir claramente uma voz distante e meio estranha, que o chamava pelo nome e que lhe dizia: "Só estou mandando 250 réis, amanhã eu mandarei o resto". Sua mulher, que fazia crochê sentada numa marquesa de palhinha no canto da sala e uma escrava que passava na hora, tentando manter a lamparina acessa rumo a cozinha, chegaram também a ouvir o recado vindo dos céus. A mocinha deixou apagar a lamparina, caiu de joelhos e começou a rezar em voz alta a Salve Rainha. A dona da casa ficou muda e pálida, sem saber o que fazer.
 
Todos sentiram medo e ficaram estupefatos durante longos segundos. O fazendeiro vendo que a situação merecia uma resposta e tentando não demonstrar o seu pânico, respondeu com voz forte: "Desculpe São Pedro, pode ficar com o troco e não mande mais tanta chuva.". Dizem que depois disso, ele ficou diferente, nunca mais zombou das pessoas religiosas e até começou a acreditar em Deus. Doava todo ano um novilho para a Festa de São Sebastião e comparecia no leilão para arrematar alguma coisa. Só não acompanhava os terços e nem ia à capelinha.
 
No dia seguinte, tudo amanheceu diferente, o gado mugia satisfeito nos pastos sofridos e os cavalos corriam ligeiros pelas encostas, relinchando de vez em quando. Os animais também comemoravam. A chuva forte tinha passado e o céu ficou mais claro. A tarde veio uma chuvinha fina, daquelas que os agricultores gostam. Ficou assim durante vários dias. A seca brava tinha acabado.
 
* Baseado num resumo de Antonio de Pádua Costa, transcrevendo a narrativa de Dona Conceição.



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