"As vezes ouço passar o vento, e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”
(Fernando Pessoa)

5 de fevereiro de 2010

SÃO PAULO E O CICLO DAS ÁGUAS

Devido às intensas e contínuas chuvas ocorridas na cidade de São Paulo/SP, a imprensa brasileira tem dedicado horas de reportagens sobre o assunto. Porém, com raríssimas exceções o assunto não é tratado de forma técnica e imparcial. Quase sempre jogam a culpa na administração pública e em São Pedro pelas constantes inundações.
Portanto decidi publicar este artigo de forma a suprir pelo menos parcialmente a falta de informação sobre o assunto. Na verdade não há um único fator causador das inundações e sim um conjunto de fatores, jamais abordados pela imprensa.


O Ciclo das Águas


Com a ação da radiação solar as águas superficiais de rios, lagos e oceanos são aquecidas e evaporam para a atmosfera. Contribuem com este fenômeno a evapotranspiração de plantas e animais. Ao atingir camadas mais elevadas da atmosfera onde as temperaturas são baixas o vapor d’água condensa-se podendo precipitar sob a forma de chuvas, granizo ou neve. Ao atingir o solo, parte da água infiltra-se no solo e outra parte escoa superficialmente.
A água que infiltra no solo parte é absorvida pelas plantas e a outra parte fica retida nos poros do solo, sendo liberada gradual e lentamente, vindo abastecer o lençol freático e posteriormente as nascentes e cursos d’água, reiniciando o ciclo. A água que escoa superficialmente é a única causadora das enchentes e inundações.


As planícies de inundações ou leito maior


Com base nas informações acima, conclui-se que o ideal é que todas as águas das chuvas infiltrem no solo, não havendo nenhum escoamento superficial. Porém na prática mesmo em ambientes naturais isto não ocorre. Portanto as enchentes são um fenômeno da natureza.
Em todos os cursos d’água, independentemente do tamanho ou porte, temos o leito por onde a água escoa e temos o leito maior também chamado de planície de inundação ou várzea fluvial. Esta última é naturalmente inundada durante os períodos de cheias.


Aspectos históricos


Sabemos que historicamente as ocupações humanas ocorreram nas margens de rios pelos seguintes motivos: necessidade de água para consumo humano, presença de terras férteis e úmidas, irrigação e dessedentação de amimais domésticos e mais recentemente para o afastamento de dejetos. Porém em épocas passadas os problemas com inundações eram menores devido ao pequeno porte das cidades com poucas áreas impermeabilizadas.


O concreto e o asfalto – Impermeabilização do solo

Na contramão da história e da inteligência humana, o homem moderno prima pela impermeabilização do solo, ocupação das planícies de inundação e uso do concreto. Como resultado imediato tem-se o aquecimento das áreas urbanas (ilhas de calor) e toda a água que deveria infiltrar no solo escoa superficialmente causando inundações em áreas mais baixas, além das enchentes com transbordamento dos cursos d’água. Outro absurdo acobertado pelo nome de Obras de Saneamento Básico são as retificações e canalizações dos cursos d’água. Tal prática além de descaracterizar completamente o ambiente aquático natural, causa o aumento da velocidade de deslocamento da água que poderá em alguns casos minimizar os efeitos das cheias em alguns pontos, porém causará sérios danos à jusante.


São Paulo – Uma cidade de planície


No caso de São Paulo há um fator agravante sério: praticamente toda a cidade está localizada em planícies de inundações. Obviamente são áreas praticamente planas sujeitas naturalmente à inundação e alagamento.


Outros fatores agravantes


Falta de planejamento urbano com crescimento desordenado.
Ocupação clandestina de áreas sujeitas naturalmente à enchentes e inundações.
Ausência de ações e obras públicas voltadas principalmente para a prevenção.
Obras públicas realizadas sem o mínimo conhecimento técnico que em vez de minimizarem os danos acabam por piorar a situação (redes de drenagem mal dimensionadas ou ausentes, canalização de cursos d’água, etc.).
Acúmulo de lixo, entulho e resíduos diversos, etc.
Concentração das chuvas (chuvas intensas em um curto período de tempo)
Temperatura urbana elevada favorece a formação de chuvas intensas


Aspectos Legais


De acordo com a Legislação Ambiental Brasileira, todas as margens de cursos d’água, nascentes, encostas e outras áreas previstas nas normas, inclusive aquelas sujeitas à inundações ou alagamentos são consideradas APP-Área de Preservação Permanente e também áreas “non aedificandi”, portanto jamais poderiam ser ocupadas.


Afinal de quem é a culpa?


Do poder público:


• Que além de não coibir, muitas vezes incentiva a ocupação de áreas sujeitas á inundação.
• Realiza obras que só agravam o problema, como por exemplo a canalização de cursos d’água, construção de “avenidas sanitárias”, impermeabilização indiscriminada do solo, drenagem pluvial inadequada ou mal dimensionada, etc.
• Falta de planejamento urbano a médio e longo prazo (Afinal o mandado político só dura 5 anos)
• Não há incentivo ou ações efetivas de criação de áreas verdes e permeáveis.


Da população


• Ocupação irregular de áreas sujeitas à inundações.
• Lixo, resíduos e entulhos jogados em ruas.
• E principalmente por não cobrar do poder público ações efetivas de prevenção.
• Impermeabilização completa dos quintais.


Do aquecimento global


• Segundo os estudiosos do assunto, com o aumento da temperatura média da terra, haverá incremento das taxas de evaporação que provocarão chuvas cada vez mais intensas.


E as soluções?


Embora pareça radical, a única forma eficaz de evitar tragédias e prejuízos materiais como as ocorrem quase que diariamente em São Paulo é a desocupação destas áreas naturalmente sujeitas às enchentes, alagamentos e inundações.
A manutenção de áreas permeáveis com grandes extensões, como por exemplo, em parques ou áreas verdes urbanas e em pequena escala em praças, jardins, canteiros centrais e obviamente nos quintais de nossas casas.
A captação de águas pluviais para usos menos exigentes em termos de qualidade pode ser adotado em casas, empresas ou até mesmo pelo poder público para fins de irrigação de praças e jardins ou uso em obras.
A renaturalização dos cursos d’água que consiste na “descanalização” vem sendo amplamente adotada por países desenvolvidos da Europa que cometeram o erro da canalização à décadas atrás.
Obras públicas e outras ações serão apenas paliativos ou soluções temporárias.

Afinal de contas o homem não está acima da natureza, ele apenas faz parte dela.